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A Sombra da Pesca Probatória e da Guerra Jurídica nos PADs: Estratégias e Riscos para Servidores

Dr. Ednei Rocha Ferreira
Por Dr. Ednei Rocha Ferreira OAB/ES 20.500 · 12 de outubro de 2026 · 8 min de leitura

Os Processos Administrativos Disciplinares (PADs) são ferramentas essenciais para a manutenção da probidade e da eficiência na administração pública. Contudo, em cenários complexos, podem ser desvirtuados por práticas como a `fishing expedition` e o `lawfare`, transformando-se de instrumentos de apuração em verdadeiros campos de batalha jurídicos. Compreender a dinâmica dessas táticas e seus impactos é crucial para qualquer servidor público que se encontre sob o escrutínio de um PAD.

Desvendando a Fishing Expedition nos PADs

A `fishing expedition`, ou 'pesca probatória', ocorre quando a autoridade instrutória de um PAD busca indiscriminadamente por provas, sem um objeto bem definido ou uma suspeita concreta inicial. Em vez de investigar fatos específicos, parte-se para uma busca generalizada, na esperança de encontrar algo, qualquer coisa, que possa incriminar o servidor. Imagine que a comissão processante, ao invés de investigar uma denúncia sobre desvio de verbas em um contrato específico, decide analisar todas as comunicações eletrônicas, registros de acesso e documentos financeiros de um departamento inteiro nos últimos cinco anos, sem qualquer indício prévio de irregularidade nesses outros dados.

Essa prática, embora possa parecer uma busca exaustiva pela verdade, é na verdade uma violação dos princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa. O servidor alvo de uma `fishing expedition` é submetido a um ônus excessivo e injustificado, tendo sua privacidade e intimidade devassadas sem razão aparente, e precisará se defender de acusações que sequer existiam no início do processo.

Caminhos de Reação à Pesca Probatória

Diante de uma `fishing expedition`, o servidor público e sua defesa podem adotar diferentes estratégias, cada uma com seus próprios custos, prazos e riscos:

Impugnação Administrativa (Recurso e Alegações Finais): Este é o caminho mais direto, embora muitas vezes menos eficaz em estágios iniciais. Consiste em apresentar à própria comissão ou autoridade superior as razões pelas quais a coleta de provas é desproporcional, impertinente ou baseada em `fishing expedition`. O custo inicial é menor, basicamente limitado aos honorários advocatícios para elaboração das peças. O prazo é o do próprio PAD, sendo as alegações finais o momento mais oportuno para sistematizar essa defesa. O risco principal é a subjetividade da análise administrativa; a própria comissão que está praticando a pesca probatória dificilmente a reconhecerá. A chance de sucesso é moderada, dependendo da clareza da violação e da receptividade da autoridade julgadora.

Mandado de Segurança: Se a impugnação administrativa for infrutífera ou se a violação for flagrante e gerar dano irreparável ou de difícil reparação, o mandado de segurança é uma ferramenta judicial potente. Ele visa a coibir atos ilegais ou abusivos da autoridade pública. Neste caso, buscaria a anulação das provas ilicitamente produzidas ou a paralisação da `fishing expedition`. O custo é mais elevado, envolvendo honorários advocatícios para a esfera judicial e custas processuais. O prazo é variável, mas geralmente mais longo que a via administrativa, podendo levar meses ou anos. O risco é a interpretação judicial; nem todo juiz reconhece de imediato a `fishing expedition` como uma violação que justifique a intervenção judicial no PAD. No entanto, o potencial de sucesso é consideravelmente maior do que na via administrativa, especialmente quando há evidências robustas da desproporcionalidade da prova.

Habeas Corpus (em casos de restrição à liberdade ou ameaça iminente): Embora menos comum em PADs puramente disciplinares, pode ser cabível se a `fishing expedition` envolver, por exemplo, a interceptação ilegal de comunicações ou outras medidas que restrinjam a liberdade do servidor, ou ameacem a sua liberdade de ir e vir. Os custos e prazos são similares aos do Mandado de Segurança, mas o risco de não cabimento é maior, já que o foco principal do HC é a liberdade de locomoção. O potencial de sucesso é alto se a ameaça à liberdade for configurada.

Lawfare: A Guerra Jurídica Velada

O `lawfare` (do inglês law + warfare) descreve o uso estratégico e político do direito e do sistema judicial para atingir objetivos de deslegitimação, neutralização ou mesmo destruição de um adversário. Nos PADs, o `lawfare` pode se manifestar de diversas formas: a instauração de processos disciplinares múltiplos e simultâneos sem justa causa, a instrumentalização de denúncias anônimas, a divulgação seletiva de informações confidenciais para a imprensa, a interpretação forçada de normas para enquadrar condutas inofensivas, ou a morosidade processual deliberada para desgastar o servidor.

O objetivo não é necessariamente punir uma infração real, mas sim criar uma narrativa negativa, gerar custos financeiros e emocionais para o servidor, desviá-lo de suas funções, e, em última instância, afastá-lo ou silenciá-lo. Um exemplo seria um PAD instaurado por uma denúncia frágil e sem provas concretas, que é deliberadamente arrastado por anos, com sucessivas prorrogações e a produção de provas irrelevantes, apenas para manter o servidor sob suspeita e afastado de certas funções estratégicas.

Estratégias para Contenção do Lawfare

Combater o `lawfare` em um PAD exige uma defesa robusta e multidisciplinar:

Defesa Processual Ativa e Técnica: A primeira linha de defesa é uma atuação técnica impecável dentro do próprio PAD. Isso inclui a apresentação de defesas prévias detalhadas, a produção de provas que refutem as acusações, a impugnação de provas ilícitas ou irrelevantes, a solicitação de diligências essenciais e a contestação da tipificação das condutas. O custo está nos honorários advocatícios para uma atuação contenciosa prolongada. O prazo é o do PAD, mas com uma atuação proativa para acelerar ou paralisar o processo. O risco é que a comissão processante e a autoridade julgadora estejam alinhadas com os interesses do `lawfare`. O potencial de sucesso depende da solidez dos argumentos jurídicos e da capacidade de expor as manobras processuais.

Ações Judiciais Autônomas (Mandado de Segurança, Ação Declaratória de Nulidade): Similar ao combate à `fishing expedition`, o Mandado de Segurança pode ser utilizado para questionar atos ilegais ou abusivos que configuram `lawfare`, como a instauração de PAD sem justa causa, a prorrogação indevida do prazo, ou a violação de direitos fundamentais. Uma Ação Declaratória de Nulidade pode ser proposta após a conclusão do PAD, se houver vícios insanáveis. Os custos são maiores, envolvendo honorários e custas judiciais. Os prazos são os da via judicial, geralmente longos. O risco é a dificuldade de provar a intenção por trás do `lawfare`, que muitas vezes é velada. O potencial de sucesso é significativo se houver prova clara da instrumentalização do direito.

Defesa da Reputação e Comunicação Estratégica: Embora não seja estritamente jurídica, a gestão da reputação é fundamental em casos de `lawfare`. A divulgação seletiva de informações à imprensa, por exemplo, exige uma resposta estratégica. Isso pode envolver a elaboração de notas de esclarecimento, a busca por direito de resposta, e a demonstração pública da verdade dos fatos. Os custos podem incluir assessoria de imprensa e consultoria de comunicação. Os prazos são imediatos, reagindo à narrativa. Os riscos são o de agravar a situação se a comunicação for mal gerida. O potencial de sucesso é alto para mitigar danos à imagem, mas não resolve o mérito do PAD.

  • Acionamento de Órgãos de Controle (Ouvidoria, Corregedoria, Ministério Público): Em alguns casos, denunciar as práticas de `fishing expedition` ou `lawfare` a órgãos externos de controle pode gerar pressão e até mesmo a instauração de investigações sobre os responsáveis. Este caminho tem custos baixos, mas prazos imprevisíveis e riscos de retaliação. O potencial de sucesso é variável, dependendo da independência e proatividade do órgão acionado.

Considerações Finais: A Importância da Assessoria Especializada

A complexidade de um PAD que envolve `fishing expedition` e `lawfare` exige uma assessoria jurídica altamente especializada em direito público e disciplinar. O profissional experiente não apenas domina as nuances processuais, mas também tem a capacidade de identificar as táticas de desvirtuamento, construir uma defesa robusta e estratégica, e orientar o servidor sobre os caminhos mais eficazes para proteger seus direitos, sua carreira e sua reputação. A escolha do caminho — seja ele puramente administrativo, judicial, ou uma combinação de ambos — deve ser feita com base em uma análise detalhada do caso concreto, considerando os custos financeiros e emocionais, os prazos esperados e os riscos inerentes a cada estratégia."

decisão. A proatividade e a estratégia são as maiores aliadas do servidor diante dessas adversidades.